Chegou ao ponto cansada e torta. Não aguentava mais tanta papelada, tanto trabalho, tanto estudo.
Precisava de férias.
Foi através desse pensamento que tudo em sua vida mudou, numa questão de oito horas.
Entrou no ônibus lotado e ninguém lhe cedeu o lugar. Estranhou, pois era tão bonita!
Até que um homem de uns 24 anos - pôde perceber - ofereceu. Agradecida sentou-se do modo mais delicado de uma pessoa cansada. O homem sentou ao seu lado, no chão mesmo. Começaram a conversar e ela foi se reconhecendo naquele corpo magrelo e moreno. Os olhos de caramelo do homem fino espelhavam a esperança da gordinha, ela mesma.
Faculdade, preço do dólar, viagens até Cristo Redentor.
- Ei, vamos? Está aqui ao lado!
Desceram juntos, cheios de parafernalhas na mão e sem se preocupar com o tempo. Devia ser umas 15 horas.
Subiram conversando, tiraram até foto!
Ela se identificou muito. Ele também.
Compraram sorvete de coco da Kibon, era o preferido de ambos.
Andaram por muito tempo, sem destino e sem relógio.
Anoiteceu, se despediram e ela pegou a condução para casa.
Olhando as fotos no caminho percebeu: estava apaixonada!
- Ei, ei, qual é o seu nome?
- É R...
Ônibus rápido, audição falhada. Perdera o nome do estranho para sempre.
Não sabia se um dia iria reencontrar aquele que mal conhecera e logo se entregara.
Abaixou a cabeça até os joelhos, a segurando com as mãos.
Suspirou e desistiu.
- Até mais, magrelo homem!

Marina sempre fora sonhadora. Olhava as estrelas a noite e contava quantos segundos durava a sua inspiração por elas. Expirava e contava novamente. Comia pitangas analisando o céu. Todas as noites, com seus cabelos ruivos e um bico-de-papagaio na orelha. Era exuberante. Deitada na grama, lambia e lambia como se todas fossem um único picolé de amora. Que afeição! Que plenitude. Conversavam. Eram todas ouvidos. Sempre soube que eram as únicas que interpretavam tamanha admiração. Pensava em ser um balão bem grande para poder chegar até lá. Fechava os olhos e... eram apenas gotas de chocolate. Rolava de um lado a outro e subia na mais alta árvore para alcançá-las. Claro, com seus morangos. Ficava horas lá até ouvir uma voz maternal a chamar para comer... Acerolas. Pena que estão tão longe. Pena que não há mais jambos. Desce, vai para casa e se enrola num manto, sem tirar os olhos delas. Tão brilhantes, tão bonitas... tão chuva de prata! Que vontade de comer pitangas. Fecha os olhos... E dorme.
Era um dia quente e Caco estava... Um caco.
Olheiras que chegavam ao queixo, pés que doíam até o joelho.
"Quem mandou sair tanto?", dizia sua mãe.
Ih... mas ele tava nem aí.
Acordou cedo para o exercício dos sábados. Comeu bem, cochilou bem... Porém era cocebo.
Sentiu falta de e procurou de. Cadê?
Um tédio repugnante percorreu-lhe a espinha e nem um Alpino resolveria o caso.
Leu folhas e não resistiu. Procurou pessoas e não achou.
Caco queria se livrar de tudo. Menos de.
De estava longe. Não dava sinais de vida e nem de falta.
Caco tomou coca, mesmo sem poder. Caco devorou carboidratos, mesmo sem poder.
Caco resolver fugir, mesmo sem poder.
Carla só queria se sentir.
Amanheceu tranquila, se exercitou e comeu. Não havia coisa melhor a fazer.
Tirou o dia para ela, mais ninguém. Não haveria motivo para mudar o humor.
Deitou e ganhou óculos chique. Se enrolou nas cobertas e quis estar Muito Bem Acompanhada (ele está lindo nesse filme).
Sentia saudade, vazio.
Decidiu andar sobre duas rodas. Que sensação! Não lembrava mais como era.
Andou com dois pés. Encontrou pessoas queridas e claro, comeu.
Carla estava bem. Estava.
Eis que surge do nada aquilo. Como?
Sentia vazio. Acompanhada.
Deitou e ganhou uma noite solitária. Se enrolou nas cobertas e quis estar Muito Bem.
Tirou a noite para ela, mais ninguém. O humor não existia mais.
Comeu muito, ficou sedentária por uma madrugada e dormiu mal. Não haveria outra coisa a fazer.
Só sentir Carla queria, e sentiu: solidão.
Brinque mais. Divida seus pertences para isso. Ande de bicicleta. Abandone a TV (só volte para ver Caverna do Dragão). Saia na rua. Vá para a praça de patins com a(o) sua(seu) melhor amiga(o). Caia de vez em quando. Machuque e tenha a marca disso para resto da sua vida. Tenha seu primeiro amor (escondido). Tenha o segundo, o terceiro, o quarto... amor, mas jamais esqueça do primeiro. Faça coisas bregas como uma carta gigante, cheio de TE AMO para sua amiga. Ria. Vá a festas da sua turma da 4ª série e não se esqueça do inimigo oculto. Estude em dois turnos e reclame do sono. Desafie os professores mais chatos tirando as melhores notas. Saia a noite. Dê o seu primeiro beijo e ache horrível. Goste de verdade de uma pessoa desprovida de beleza, porque ao passar o tempo você vai perceber que o que realmente importa é o que há por dentro. Se desaponte com o sexo oposto e chore. Vale a pena o crescimento. Pratique handball. Aprenda Física de uma vez por todas antes que você enlouqueça tentando fazer isso mais tarde (boa sorte com o professor!). Viaje para aquele local que todos vão e encontre seus amigos. Vá para algum lugar que tenha uma língua diferente da sua e se divirta como uma criança. Tire fotos. Compre presentes para os outros. Faça algo proibido (mas nem tanto). Valorize seus pais e avós. Não brigue com seus irmãos. Nem se for por causa de homem/mulher. Não vale a pena. Compre um cachorro bem grande e cuide dele. Se forme no colégio. Faça cursinho e conheça pessoas incríveis. Passe na faculdade e no curso que quiser afinal, ninguém pode mudar ou influenciar isso. Conheça pessoas do mundo inteiro. Namore e que o sentimento seja recíproco. SURPREENDA e seja surpreendida(o). Assita o filme "Antes que termine o dia". Ouça "Smile" do Nat King Cole e emocione-se. Complique menos e AME MAIS.
Ah! Que problema de falta.
Atormenta meus últimos dias e deixa meus olhos cansados.
olhar perdido e postura errada.
Tudo pela falta.
Se é pedir muito, então não há por que funcionar (Deus me livre!). Entretanto, não pedir consome o humor. O bom seria não ter que pedir... Só sentir.
Cadê aquele tremor de antes? A reciprocidade?
Pode ser influência da Lua ou dos próprios métodos mas, no momento, um vazio preenche o espaço.
Lágrimas poderiam limpar os olhos e a alma.
Será pedir demais?
Será ter de menos?
Quiçá um dia serei surpreendida.
Quiçá.
Todo dia levantava às cinco da manhã para preparar os presentes. Nunca dava para fazer isso no dia anterior, seria perigoso demais... Poderiam desconfiar.
Botava tudo numa sacola de papai noel atrasado, vestia a roupa rasgada, o tênis de anos e saía com sua carroça.
Dez para as sete lá estava ele, anunciando a entrega. Corria gente de tudo quanto era canto daquele promíscuo lugar.
- Calma, calma. Tem pra todo mundo! Mais rápido, ninguém pode ver.
Carnes, frutas, leite, arroz, casacos e cobertores eram os principais componentes do Natal fora de época.
Olhos cheios de lágrimas agradeciam do fundo do coração.
Sentia-se honrado. Apesar de todo o esforço, adorava ver um sorriso no rosto da criança que acabara de ganhar um carrinho "novo".
Era tudo em segredo. Todos os bairros o guardavam. Até que um dia alguém, não se sabe quem e nunca saberá, denunciou.
Os fardados chegaram na hora exata da entrega. Foi uma correria! Apenas restavam pedaços de comida e ele, no chão.
Foi levado e preso por furto.
- Tudo que fiz foi para ajudar! Deixe eu me explicar.
Entretanto não queriam saber. Era apenas mais um pobre roubando e, por incrível que pareça, para ajudar os outros.
Quatro anos de cadeia por um furto de bem, sem direito a nada.
Entre celas sujas, riscos e tatuagens tinha o pensamento: "Pátria que me pariu!"